Os adoçantes são frequentemente utilizados como alternativa ao açúcar, especialmente por pessoas que buscam controle do peso ou da glicemia. No entanto, nem todos apresentam o mesmo comportamento no trato gastrointestinal (TGI). Em indivíduos saudáveis, muitos desses compostos podem ser bem tolerados quando consumidos dentro da ingestão diária aceitável. Entretanto, em pessoas com Síndrome do Intestino Irritável (SII), disbiose intestinal ou maior sensibilidade gastrointestinal, alguns adoçantes podem intensificar sintomas como distensão abdominal, excesso de gases, dor, alterações do hábito intestinal e desconforto digestivo (RUSSELL et al., 2023; WUEBBLES et al., 2024). Dessa forma, a escolha do adoçante deve considerar não apenas seu poder adoçante, mas também a resposta clínica individual.
Sacarina: qual o impacto sobre a microbiota?
A sacarina é um adoçante artificial amplamente utilizado por apresentar alto poder adoçante e ausência de calorias. Embora seja considerada segura pelas agências reguladoras dentro dos limites de consumo recomendados, estudos sugerem que seu uso frequente pode promover alterações na composição da microbiota intestinal e na produção de metabólitos bacterianos. Essas mudanças parecem ser mais relevantes em indivíduos predispostos, podendo contribuir para piora da disbiose e maior sensibilidade intestinal (SUEZ et al., 2014; RUSSELL et al., 2023). Ainda assim, a resposta é variável entre os indivíduos, reforçando a importância da avaliação clínica individualizada.
Xilitol: por que pode causar gases e diarreia?
O xilitol pertence ao grupo dos polióis (álcoois de açúcar), compostos que apresentam absorção parcial no intestino delgado. A fração não absorvida segue para o cólon, onde sofre fermentação pelas bactérias intestinais, aumentando a produção de gases e o efeito osmótico. Em indivíduos sensíveis, especialmente aqueles com SII, seu consumo pode favorecer distensão abdominal, flatulência e episódios de diarreia quando ingerido em quantidades moderadas ou elevadas (MÄKINEN, 2016; STAUDACHER; WHELAN, 2017). Esses efeitos também justificam a inclusão dos polióis entre os carboidratos classificados como FODMAPs.
Ciclamato de sódio e sucralose: o que merece atenção?
O ciclamato de sódio e a sucralose também são adoçantes não nutritivos amplamente utilizados em alimentos industrializados. Embora apresentem boa segurança toxicológica, estudos recentes sugerem que o consumo frequente pode modificar a atividade metabólica da microbiota intestinal, alterar a diversidade bacteriana e influenciar a integridade da barreira intestinal em indivíduos suscetíveis (RUSSELL et al., 2023; WUEBBLES et al., 2024). Na prática clínica, alguns pacientes relatam aumento de gases, distensão abdominal e piora do desconforto intestinal durante o consumo desses adoçantes. Entretanto, a intensidade desses efeitos varia conforme a dose, a frequência de ingestão e a sensibilidade individual, não sendo possível generalizar que todos os consumidores apresentarão sintomas.
A escolha deve considerar o intestino, não apenas as calorias
A decisão de utilizar um adoçante deve ir além da redução do consumo de açúcar. O tipo de adoçante, a quantidade ingerida, a frequência de consumo e as características da microbiota intestinal influenciam diretamente a tolerância gastrointestinal. Para pessoas com intestino saudável, esses produtos costumam ser bem tolerados quando utilizados dentro das recomendações. Já em pacientes com SII, disbiose ou outras alterações gastrointestinais, a avaliação individualizada é fundamental para identificar possíveis gatilhos alimentares e promover um manejo nutricional baseado em evidências científicas.
Em resumo, adoçantes podem ser aliados importantes na redução do açúcar, mas é essencial entender seu impacto no TGI para garantir saúde e bem-estar.
Nem todo adoçante é bem tolerado por todos os intestinos. Identificar quais alimentos podem estar contribuindo para os seus sintomas é um passo importante para um tratamento mais individualizado. Agende sua consulta e descubra qual estratégia faz sentido para o seu caso.
Jéssica Gomes
- Referências
MÄKINEN, K. K. Gastrointestinal disturbances associated with the consumption of sugar alcohols with special consideration of xylitol: scientific review and instructions for dentists and other health-care professionals. International Journal of Dentistry, v. 2016, 2016. DOI: 10.1155/2016/5967907.
RUSSELL, W. R. et al. The impact of non-nutritive sweeteners on the gut microbiome and gastrointestinal health: an updated review. Nutrients, v. 15, n. 15, 2023. DOI: 10.3390/nu15153388.
STAUDACHER, H. M.; WHELAN, K. The low FODMAP diet: recent advances in understanding its mechanisms and efficacy in IBS. Gut, v. 66, n. 8, p. 1517-1527, 2017. DOI: 10.1136/gutjnl-2017-313750.
SUEZ, J. et al. Artificial sweeteners induce glucose intolerance by altering the gut microbiota. Nature, v. 514, p. 181-186, 2014. DOI: 10.1038/nature13793.
WUEBBLES, R. D. et al. Non-nutritive sweeteners and gastrointestinal physiology: implications for gut barrier function and microbiome. Current Opinion in Gastroenterology, v. 40, n. 2, p. 94-101, 2024. DOI: 10.1097/MOG.0000000000000916.

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