Alimentação Saudável

Eixo intestino-cérebro: o que as bactérias intestinais têm a ver com a serotonina?

Quando falamos em saúde intestinal, não estamos falando só de digestão, existe uma comunicação constante entre microbiota, intestino e cérebro.

Eixo intestino-cérebro: o que as bactérias intestinais têm a ver com a serotonina?

Aquela sensação de “frio na barriga” antes de uma situação importante não acontece por acaso. Intestino e cérebro conversam o tempo inteiro, em uma comunicação de mão dupla que envolve o sistema nervoso, o nervo vago, o sistema imunológico, hormônios e substâncias produzidas ou moduladas pela microbiota intestinal. É o chamado eixo microbiota–intestino–cérebro. Hoje sabemos que os microrganismos intestinais participam dessa conversa de diferentes maneiras, inclusive interferindo no metabolismo de substâncias relacionadas à serotonina, dopamina, GABA e glutamato (ABURTO; CRYAN, 2024; ZHANG et al., 2024). 

A maior parte da serotonina é produzida no intestino

Grande parte da serotonina do organismo é produzida no trato gastrointestinal, principalmente pelas células enteroendócrinas chamadas enterocromafins. A microbiota participa desse processo: metabólitos bacterianos podem estimular essas células e modificar a produção intestinal de serotonina. Um estudo clássico mostrou que bactérias intestinais específicas conseguem estimular a biossíntese de serotonina nas células enterocromafins do cólon (YANO et al., 2015). Essa serotonina tem funções importantes no próprio intestino, participando da motilidade, secreção e sensibilidade visceral (YANO et al., 2015; REIGSTAD; KASHYAP, 2022). 

Dessa forma, a serotonina produzida no intestino não atravessa livremente a barreira hematoencefálica para virar serotonina cerebral. A conversa acontece de maneira muito mais interessante. As bactérias podem interferir no metabolismo e na disponibilidade do triptofano, aminoácido utilizado pelo organismo para produzir serotonina, além de gerar ácidos graxos de cadeia curta e outras moléculas capazes de participar da sinalização intestinal, imunológica e neural. Nervo vago, sistema nervoso entérico e circulação de metabólitos também ajudam a levar informações do intestino ao cérebro (ABURTO; CRYAN, 2024; ZHANG et al., 2024). 

Cuidar do intestino também é cuidar da saúde mental?

Existe uma relação importante, mas isso não significa que probióticos ou uma dieta específica tratem sozinhos ansiedade ou depressão. Estudos vêm encontrando associações entre microbiota, alimentação, estresse, comportamento e transtornos neuropsiquiátricos, mas transformar essas descobertas em tratamentos clínicos previsíveis ainda é um campo em desenvolvimento. O que já fica cada vez mais claro é que alimentação e microbiota fazem parte de uma rede muito maior de comunicação entre corpo e cérebro (SCHNEIDER et al., 2024; OHARA; HSIAO, 2025).  Assim, é importante compreender que intestino e cérebro não funcionam como dois sistemas separados. O sono, o estresse, a alimentação,o  funcionamento intestinal e microbiota participam internamente de tudo que acontece a nível homeostático.

Quer ver mais conteúdo sobre nutrição? Me segue no instagram. Eu sou muito mais legal por lá :) @jessicagomesnutri 

- Referências

ABURTO, María R.; CRYAN, John F. Gastrointestinal and brain barriers: unlocking gates of communication across the microbiota–gut–brain axis. Nature Reviews Gastroenterology & Hepatology, v. 21, p. 222–247, 2024. 

OHARA, Takahiro E.; HSIAO, Elaine Y. Microbiota–neuroepithelial signalling across the gut–brain axis. Nature Reviews Microbiology, v. 23, p. 371–384, 2025. 

SCHNEIDER, Elizabeth et al. Feeding gut microbes to nourish the brain: unravelling the diet–microbiota–gut–brain axis. Nature Metabolism, v. 6, p. 1454–1478, 2024. 

YANO, Jessica M. et al. Indigenous bacteria from the gut microbiota regulate host serotonin biosynthesis. Cell, v. 161, n. 2, p. 264–276, 2015. DOI: 10.1016/j.cell.2015.02.047. 

ZHANG, Xiaojie et al. Gut microbiota modulates neurotransmitter and gut-brain signaling. Microbiological Research, v. 287, 127858, 2024. DOI: 10.1016/j.micres.2024.127858.

Imagem elaborada pela autora: https://www.instagram.com/jessicagomesnutri?igsh=MTh6NGFlbndhM283Yg%3D%3D&utm_source=qr em 10/09/2026

Compartilhar

Olá, deixe seu comentário para Eixo intestino-cérebro: o que as bactérias intestinais têm a ver com a serotonina?

Cancelar Enviando comentário