A palavra disbiose aparece cada vez mais quando o assunto é intestino e, às vezes, parece explicar qualquer coisa: gases, estufamento, constipação, diarreia e até cansaço. Mas não é tão simples assim. Disbiose é um termo usado para descrever alterações na composição, estrutura ou função das comunidades de microrganismos que vivem no nosso corpo, especialmente no intestino. E existe um detalhe importante: ainda não temos um padrão único de “microbiota ideal” que sirva para todo mundo, porque ela muda bastante de uma pessoa para outra (CARÍAS DOMÍNGUEZ et al., 2024).
Nem todo desconforto intestinal é disbiose
Estufamento, excesso de gases, mudança na frequência das evacuações e desconforto abdominal merecem atenção, mas esses sintomas sozinhos não fecham um diagnóstico de disbiose. Eles também aparecem em condições como constipação, intolerâncias alimentares e síndrome do intestino irritável. Até os testes comerciais de microbiota precisam ser interpretados com cautela: atualmente, não existe um valor de referência universal capaz de separar, sozinho, uma microbiota “saudável” de uma “desequilibrada”. Então, antes de tentar corrigir bactérias, é preciso entender os sintomas, alimentação, medicamentos e toda o contexto por trás de cada história (CARÍAS DOMÍNGUEZ et al., 2024)
A alimentação conversa com a microbiota todos os dias
Talvez aqui esteja uma das partes mais interessantes: o que você come também ajuda a construir o ambiente em que esses microrganismos vivem. Uma alimentação variada, com frutas, verduras, legumes, leguminosas, cereais integrais e outras fontes de fibras oferece diferentes substratos para o metabolismo microbiano. Mas isso não significa que simplesmente aumentar a quantidade de fibras vai resolver a disbiose. A resposta é individual e depende tanto do tipo de fibra quanto da microbiota que já existe ali. Em um ensaio clínico, uma dieta rica em fibras modificou funções do microbioma, enquanto uma dieta rica em alimentos fermentados aumentou a diversidade microbiana e reduziu marcadores inflamatórios, mostrando que diferentes estratégias podem produzir respostas diferentes (WASTYK et al., 2021).
Não existe um alimento capaz de resolver tudo
Probióticos, prebióticos e suplementos de fibras podem ter espaço na prática clínica, mas precisam ter indicação, dose e objetivo. Não faz muito sentido escolher um probiótico só porque tem muitas cepas ou tentar eliminar bactérias ruins sem saber o que está por trás dos sintomas. A microbiota é um ecossistema complexo, influenciado pela alimentação, medicamentos, especialmente antibióticos, funcionamento intestinal e características individuais. Por isso, cuidar desse ambiente costuma ser muito menos sobre encontrar um produto milagroso e muito mais sobre entender o que está acontecendo para, então, escolher a estratégia que realmente faça sentido.
No fim, cuidar da microbiota é favorecer um intestino que funcione bem dentro da realidade de cada pessoa e, isso começa olhando para o conjunto: variedade alimentar, fibras na quantidade que o intestino tolera, rotina, sintomas e, quando necessário, investigação clínica. Antes de sair retirando alimentos ou acrescentando suplementos, vale entender por que aquele intestino está dando sinais.
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- Referências:
CARÍAS DOMÍNGUEZ, Ailim Margarita et al. Intestinal dysbiosis: exploring definition, associated symptoms, and perspectives for a comprehensive understanding — a scoping review. Probiotics and Antimicrobial Proteins, v. 17, n. 1, p. 440–449, 2025. DOI: 10.1007/s12602-024-10353-w.
WASTYK, Hannah C. et al. Gut-microbiota-targeted diets modulate human immune status. Cell, v. 184, n. 16, p. 4137–4153.e14, 2021. DOI: 10.1016/j.cell.2021.06.019.
YILMAZ, Bahtiyar; MACPHERSON, Andrew J. Delving the depths of ‘terra incognita’ in the human intestine — the small intestinal microbiota. Nature Reviews Gastroenterology & Hepatology, v. 22, p. 71–81, 2025. DOI: 10.1038/s41575-024-01000-4.
Imagem: elaborada pela autora, https://www.instagram.com/jessicagomesnutri?igsh=MTh6NGFlbndhM283Yg%3D%3D&utm_source=qr em 10/09/2026

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